terça-feira, 2 de março de 2010

Which One Would You Choose?





















One day an old Native American grandfather was talking to his grandson. He said, "There are two wolves fighting inside all of us - the wolf of fear and hate, and the wolf of love and peace."

The grandson listened, then looked up at his grandfather and asked, "Which one will win?"

The grandfather replied, "The one we feed."

***

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Clima, Vida e o velho Darwinismo


Reproduzo aqui um debate travado alguns anos atrás (2005) com um antigo professor de mestrado, que coloca questões fundamentais para a compreensão do papel da vida na Terra e para a regulação climática.

Prezado Professor,

Veja um grafico que tirei do livro Biotic regulation of the environment. e modifiquei um pouco para audiencias nao especializadas (ppt, anexo). Este grafico mostra que, no sentido dos fluxos de carbono regulados pela vida, o mundo eh dos microbios (ponto final.). Mesmo quando se consideram as plantas, vale ressantar e citando a Lynn Margulis, que organismos multicelulares sao hibridos de microbios, ou seja, sao associacoes gigantescas de celulas cuja operacao basica nao difere muito daquela de organismos existentes na terra por bilhoes de anos, antes mesmo do primeiro dinossauro aparecer. Neste sentido, e no sentido de regulacao biotica do planeta, eh praticamente irrelevante a sorte dos grandes animais ou plantas, pois estes, como especies com esta ou aquela cor, este ou aquele mecanismo de reproducao, este ou aquele metabolismo secundario anti-herbivoria, participam de forma apenas acessoria na "regulacao" propriamente dita. Colocado sob esta perspectiva, volte a ler o sumario que enviei na primeira msg sobre a termodinamica da vida. A vida (e nao as especies) se mantem homeostaticamente, mesmo com o meteoro gigante no Yucatan, glaciacoes, george bushes ou o que mais venha. A vida acumula informacoes, jah que as celulas, mesmo as altamente modificadas e evoluidas que compoem nossos musculos (por exemplo), nao "esqueceram" como fermentar (corra o suficiente para elas ficarem sem oxigenio, e elas voltarao ao que fizeram por bilhoes de anos na terra antes de existir oxigenio livre na atmosfera, formando acido latico), as metanogenicas nao esqueceram como produzir metano, a fotossintese foi aprendida uma vez pelas ciano bacterias, e estah hoje disseminada em "todos" organismos verdes fotossintetizantes, nao consta que a vida perdeu ou esqueceu como fazer a fotossintese, mas sim aperfeiçoou. E para o aperfeiçoamento de processos metabolicos eh importantissima a selecao natural. As especies maiores, aquelas que impressionam nossas crianças em um zoologico, e que prendem tanto o pensamento neo-darwinista, tem um papel importante localmente, mas nao competem com a microbiota nos assuntos de regulacao climatica. As bacterias nao morrem, se dividem. Elas nao fazem sexo, mas trocam material genetico de modo frenetico, encontrando nas combinacoes resultantes novas solucoes para desafios ambientais com uma velocidade espantosa, algo que organismos multicelulares maiores, apesar da maior complexidade, sao incapazes de fazer. Elas sao verdadeiras centrais metabolicas, "microprocessadores bioquimicos vivos e adaptantes", com uma plasticidade inacreditavel. Recentemente li uma noticia sobre haverem encontrado um milhao de variedades de bacterias em um unico centimetro cubico de terra. Os microorganismos sao omnipresentes, estao nos ambientes mais extremos da terra, estao em "todos" ambientes, como estiveram ao longo de bilhoes de anos, e tambem chegam a compor 10% do nosso proprio peso! Ja pensaste nisso? Eh principalmente sobre estes seres fantasticos, mestres da manipulacao do ambiente que incorporam os principios termodinamicos que enunciei, que deviamos debater quando falamos de "regulacao" planetaria. Nao se trata de Gaia, ou nao gaia, muito menos trata-se de assumir ou refutar que os organismos "sabem" o que fazem, que tem um proposito. No meu entender, trata-se de tomarmos conhecimento dos fatos cientificos sem dogmatismos de qualquer especie, e deixar entao as evidencias falarem por si mesmas.

Newton estava certo sobre a mecanica classica, nao? No entanto os argumentos dele nao servem para justificar, apoiar ou refutar os fenomenos estudados pela mecanica quantica relativistica da atualidade. Isto porque a mecanica classica eh apenas uma manifestacao macroscopica "simplificada" de outros fenomenos de fundo, no amago da materia e da energia. O proprio Newton desenvolveu ferramental matematico revolucionario para explicar sua intuicao. Os grandes avancos na fisica deveram-se a "revolucoes" nos pensamentos, nas metricas e nos ferramentais. Similarmente, Darwin viu um fenomeno real, nao resta duvida, em relacao a importancia da selecao natural na evolucao de processos, organismos e sistemas naturais. Mas o atavismo dos seguidores neo-darwinistas que ainda persiste (espero que nao te incluas nesta comunidade parada no tempo) dificulta ou impede o desenvolvimento de novas compreensoes. Eh conhecida a influencia freadora de Eistein no desenvolvimento inicial da mecanica quantica (God does not play dice...), ele, o genio que havia introduzido a humanidade nas maravilhas da relativistica... Tambem eh conhecido o enorme atraso sofrido pela geologia quando os geologos classicos negaram a possibilidade dos continentes flutuarem e se deslocarem sobre o manto na Terra. A Lynn Margulis foi ridicularizada pelo pensamento neo-darwinista nos anos 60, quando lançou a hipotese de que organelas de celulas complexas, como os cloroplastos da fotossintese ou as mitocondrias da respiracao, eram na realidade "bacterias especializadas" que colonizaram outras celulas, e uma vez dentro estabeleceram relacoes de colaboracao, de simbiose, nao de exclusao competitiva, algo impensavel no pensamento neo-darwinista convencional. Nos anos 70 descobriu-se plasmidios (DNA) nas mitocondrias, provando o acerto da hipotese da Lynn Margulis. Hoje, os biologos do status quo que nao aceitam a teoria da simbiose estao como os poucos geologos classicos nos anos 80, que com todas as provas da geologia submarina ainda sustentavam nao haver deriva de continentes. Poderia continuar citando outros exemplos, mas o pano de fundo eh a necessidade de honestidade e abertura em relacao a novos conhecimentos, e nao a adocao de um ceticismo poperiano ultrapassado, incapaz de lidar com ou explicar sistemas complexos. Rigor cientifico, para qualquer pessoa disposta a encarar os fatos de forma objetiva, requer abertura a evidencias, e nao o aprisionamento em escolas de pensamento, que, como a propria teoria da evolucao explica, tendem ao imobilismo e a se agarrar de maneira persistente a suas proprias maximas (Thomas Kunn, a natureza das revolucoes cientificas).

No dia que meteorologistas lerem sobre biologia, e biologos fizerem o mesmo sobre meteorologia acho que nosso debate em relacao a regulacao biotica do clima vai progredir com muito maior vigor. Mas para que cheguemos neste estagio me parece fundamental que cada ciencia, em suas respectivas competencias, se desarmem das certezas e das explicacoes definitivas.

Como dizia Shakespeare em sua obra prima Hamlet: "tem mais coisas entre o ceu e a terra do que imagina nossa vaidosa filosofia"...

Abracos,
Antonio

PS.: Se pudesse sugerir leituras que estao na base da minha argumentacao, sugeriria primeiro estes dois livros:

O que eh Vida, Lynn Margulis e Dorion Sagan, Jorge Zahar editora, 316p (custa menos de 30 reais)
Biotic Regulation of the Environment, Gorshkov, Makarieva & Gorshkov, Springer-Praxis, 367p (custa por volta de 120 libras ) (dois destes autores sao fisicos nucleares que passaram 30 anos aprendendo sobre "outras" disciplinas)

Foram escritos para audiencias nao especializadas, e elaboram de maneira brilhante as ligacoes entre disciplinas. E, nao se preocupe Bruce, concordar com os autores nao vai requerer crença religiosa em Gaia. Apenas requer disposicao objetiva a averiguar os fatos, sob a luz da mais rigorosa logica.

**********************************************
Professor escreveu:

Antonio, ja li a maioria dos livros que voce mencionou e apoio em grande parte com suas hipóteses. Nao discordo contigo sobre a existencia de homeostase mas sim da sua origem. Voce apresenta a vida com se fosse uma coisa consciente que controla sua proprio destino. Assim voce antropogeniza os sistemas naturais. Lovelock fez o mesmo na sua descrição de "gaia" e isto é uma das principais razões que o conceito ainda não é aceito por inteira pela maioria da comunidade cientifica. A maiorias dos organismos nem "buscam" nem "lutam" para manter o equilíbrio. Coexistem em ecossistemas estáveis por consequencia da evolução e da ação implacável da seleção natural. O oxigênio que temos na atmosfera hoje é de origem natural, produto da fotosintese de algas marinhas durante milhoes de anos. Para a maioria dos organismos hoje que dependem da oxigenio para respirar, esta otimo. Porém para a maioria dos organismos que existiram quando a fotsintese evoluiu, o oxigenio era extremamente toxico. Alguns destes organismos originais ainda existem hoje nas raras ambientes anóxicas que sobraram, porem a maioria morreram. Nào era uma questão de buscar ou lutar para manter um equilíbrio, mas sim da sobrevivencia dos organismos mais adaptados às novas condições de equilíbrio criados na presença de oxigenio. Nao creio que as coisas tem mudadas tanto desde 1984, nem desde o Darwin inventou a terioria de evolução. Nào é so uma questão de semantics mas de pricisao e rigor cientifica. Antes de propor o uso sistemas biologicas com modelos para processos climatologicos, temos que ser rigorsamente claro sobre as caracteristicas basicas destes sistemas. Concorda Antonio? Abracos, Professor
**********************************************

----- Original Message ----- From: "Antonio Donato Nobre"
To: professor
Cc: comunidade de meteorologistas
Sent: Friday, September 02, 2005 3:37 PM
Subject: Re: Fw: Vida nos Modelos Climaticos

Caro Professor,

Voce cita uma prova no teu curso de modelagem no mestrado do INPA em 1984!!

Estamos em 2005 caro professor!

Gostaria de saber tua opiniao sobre os pensamentos nos livros que listei. Minhas afirmacoes sao baseadas no conhecimento sumarizado naqueles livros.


Abracos,
Antonio

P.S: depois gostaria de saber qual sua explicacao para a estabilidade climatica da Terra...

**********************************************
Professor escreveu:

Antonio e demais colegas, ofereco alguns COMENTARIOS em baixo para ajudar na
evolução desta discussão. Me perdoam os erros de portugues. Um abraço,
Professor

----- Original Message ----- From: "Antonio Donato Nobre"
Subject: Vida nos Modelos Climaticos

Prezados Colegas do Primeiro Workshop de Modelagem Climatica e Ambiental (Manaus),

Gostaria de tomar alguns minutos do vosso tempo para apresentar uma linha de raciocinio que complementa e abre caminhos em relacao aa excelente discussao que tivemos em Manaus. Faltou eu apresentar um slide sobre aspectos termodinamicos ligados a vida com importancia vital na regulacao do clima na Terra:

Reflexoes termodinamicas sobre a vida

1) tudo que eh vivo "acumula informacao", que nao se perde, mas "evolue" e "se aperfeicoa"
NÃO NECESSARAMENTE. A MAIORIA DAS ESPECIES QUE EVOLUIREM DURANTE OS ULTIMOS 2-3 BILHOES DE ANOS É EXTINTA HOJE. PERDEU-SE NO PROCESSO UMA QUANTIDADE ENORME DE INFORMAÇÃO GENETICA. OS GENES (PACOTES DE INFORMAÇÃO) MAIS APTOS CONTINUAM CONSCO HOJE ( NA VISÃO DE DAWKINS) EM ASSOCIAÇÕES OPORTUNISTICAS QUE CHAMAMOS DE ESPÉCIES. NA MEDIDA QUE ALGUNS ESPECES E GENES ACABAM E NOVAS SURGEM A MASSA AGREGADA DE INFORMAÇÃO SE TRANSFORMA ENCOLHINDO OU
EXPANDENDO CONFORME A VARIAÇÃO NAS FORÇAS SELETIVAS. IMAGINAM A ENORME PERDA DE INFORMAÇÃO ORGANICA QUE OCORREU NO FINAL DA CRETACEOUS APOS O IMPACTO DAQUELE METEORO GIGANTE!


2) Organismos manipulam fluxos de materia e energia (informacao, mais do que tudo, determina os balancos entre absorcao, acumulacao e liberacao de substancias no ambiente)
ISTO É UMA QUESTÃO DE OVO E GALINHA. OS ORGANISMOS MANIPULAM OS FLUXOS DE MATERIA E ENERGIA OU SÃO DEPENDENTES E MANIPULADOS POR ELES? NO CURTO PRAZO MANIPULAM. NO PRAZO EVOLCIONARIO, SOBREVIVAM AQUELES CAPAZES DE MANIPULAR A MATERIA E ENERGIA NAS FORMAS EXISTENTES.

3) Processos organicos, organismos e ecossistemas sempre buscam "equilibrio" (tambem aqui, informacao eh usada na construcao de multiplos feedbacks negativos visando a estabilidade)
ISTO TAMBÉM É POLEMICA. (LEMBRA A PROVA FINAL, ANTONIO?) HA DIVERSAS MANEIRAS PARA OS ORGANISMOS INTERAGIREM COM SEU MEIO E ENTRE SES. POREM SOMENTE UMA PEQUENA FRACÇÃO DESTAS RELAÇÕES SÃO ESTÁVEIS A MÉDIO E LONGO PRAZO. A EVOLUCION E NAO OS ORGANISMOS SELECCIONOU AS RELAÇÓES QUE PERSISTIREM E AINDA EXISTEM HOJE.

4) a vida luta continuamente contra "desordem" (bomba anti-entropia
NÃO, A MAIORIA DOS SERES VIVOS É INCONSCIENTE. O DESORDEM TENDA A SER ELIMINADA, A ORDEM SELECTIONADA. A VIDA PARTICIPA E CONTROLA O QUE PODE MAS A SELEÇÃO NATURAL DEFINA A CONJUNTURA.

5) processos vivos sao "auto-regulados", a propriedade mais fundamental da vida, e essencial para se compreender a estabilidade climatica da Terra ao longo de bilhoes de anos!
OS PROCESSOS AUTOREGULADORES TENTEM A SOBREVIVER, SEJAM VIVOS OS ABIOTICOS. SE O HOMEM CONSIGA ENTENDER E REGULAR SEU PAPEL NO GEOSFERA EM TEMPO TAMBEM PODE SOBREVIVER. POREM PARA FAZER ISTO ELE TERA QUE ENFRENTAR O PRIMEIRO E MAIS CRUEL DOS LEIS DE DE NEWTON, A INERCIA (TANTO FÍSICA QUANTO CULTURAL-CIENTÍFICA)

Citando a Lin Margulis, "um fenomeno puramente fisico carece da capacidade de utilizar informacao acumulada em sistemas complexos para definir os cursos posteriores.." ou, em outras palavras:

" um tornado, que eh um sistema dissipativo com uma certa ordem abiotica em si proprio, nao para no meio da planicie, observando uma cadeia de montanhas no horizonte, e exclama: OPPS montanha adiante, mudemos o curso para continuarmos existindo...",

algo que, contudo, a vida faz "todo tempo, o tempo todo"...

Espero que com este pequeno adicional a gente continue aquele saudavel debate, e que os modeladores puramente fisicos continuem receptivos para a necessidade de incluir a termodinamica da vida nos modelos...

Abracos
Antonio Nobre
Escritorio Regional do INPA, INPE Sigma

Alguma literatura util para o tema
Gorshkov et al, Biotic Regulation of the Environment, Springer Praxis, 2000
Margulis & Sagan, O que eh Vida?
Margulis & Sagan, Simbiotic Planet
Margulis & Sagan, Microcosmos

domingo, 14 de junho de 2009

Deitado Eternamente em Berço Esplêndido

Vastas extensões de solos aráveis, naturalmente irrigadas por chuvas plenas em clima ameno fazem da América do Sul, e do Brasil em particular, um ambiente extremamente favorável para a agricultura e a criação de animais. A abundância de água nos rios favorece a produção de energia hidrelétrica. Some-se a essas benesses o mito do Eldorado de riquezas minerais nas rochas e sedimentos e o ouro negro do petróleo encontrado em cada vez maior fartura no subsolo, e teremos um quadro aproximado dos valores ufanistas reconhecidos pela sociedade brasileira contemporânea como qualificadores de um berço esplêndido. Já as magníficas florestas, ícones indissociáveis do Brasil consagrados no verde da bandeira, tendem a não ser reconhecidas como riquezas em si mesmas, capazes de motivar o orgulho nacional sem que se veja nelas alguma destinação utilitária. Se são os peixes dos rios e lagos apreciados, a madeira nas toras de árvores seculares, serrada, e um ou outro recurso adicional da flora e da fauna nativas, empregados, ainda assim o imaginário popular do “berço esplêndido” não reconhece a vida silvestre com valor comparável aos tesouros inanimados que constituem a base ideológica das riquezas da pátria.

As culturas que aqui se desenvolveram antes da invasão europeia tinham uma leitura diferente do significado de riqueza. Por milênios, o registro paleontológico sugere um continente pouco alterado na sua integridade ecológica. Seria esta uma indicação das florestas terem constituído um vasto jardim do Éden para aqueles habitantes ancestrais? A região continha extensivas paisagens antropizadas, principalmente pela domesticação da biodiversidade e manipulação da vegetação. Referindo-se a isso, o etnólogo Eduardo Viveiros de Castro afirma que “a relação dos povos indígenas com o ambiente americano era tecnológica, e não natural... tratava-se de uma relação plenamente antrópica, técnica, não uma relação "edênica”... de pura simbiose ecológica. Devemos falar então em coadaptação entre homem e ambiente neste caso, antes que de uma adaptação unilateral do ambiente aos desígnios do homem”. O modo de vida com baixo impacto ecológico dos habitantes ancestrais do continente sul-americano sugere que estes o viam como manancial de vida e o utilizavam de maneira respeitosa e tecnologicamente sustentável. A ciência atual tende cada vez mais, pelo viés objetivo, a corroborar esta visão. Michael Heckenberger e colaboradores, por exemplo, relatam em artigo na revista Science a descoberta de urbanismo pré-colombiano na Amazônia. Encontraram vestígios de complexas cidades distribuídas no alto rio Xingu, que sustentavam alta densidade populacional em paisagens com estradas, barragens e construções, mas onde a floresta era mantida em toda sua biodiversidade e função.

Por que os segredos nativos sobre a tecnologia da sustentabilidade foram perdidos ao longo da história? E por que a sociedade atual, amante da tecnologia, orienta-se por um sistema de valores cuja percepção antagônica e excludente do ambiente vivo justifica o desenvolvimento somente das riquezas materiais inanimadas? Uma das respostas pode encontrar-se no insuspeito desenvolvimento. Para os povos que aspiram por afluência, desenvolvimento tornou-se sinônimo quase obrigatório de geométrico progresso material. E, de fato, o progresso atingido por várias nações nos últimos dois séculos significou uma acumulação de opulência material jamais vista. A melhoria no conforto, a maior longevidade e o acesso aos novos símbolos de riqueza e da modernidade tornaram-se atraentes indicadores de desenvolvimento. Mas como a acumulação de riquezas e o progresso humano geraram uma ruptura com a Natureza?

O caso do Brasil ilustra um mecanismo padrão de desenvolvimento, no qual é possível encontrar elementos-chave para a compreensão de como as práticas correntes de desrespeito ao ambiente e à vida têm um encadeamento lógico na história. Ao longo dos últimos dois séculos, a antiga aspiração brasileira pelo desenvolvimento transformou-se num modus operandi que se cristalizou no desenvolvimentismo. O desenvolvimentismo como tal resultou da fusão de ideias do positivismo, dos nacionalistas, dos defensores da industrialização e dos intervencionistas pró-crescimento. A força propulsora para esta agregação surgiu da legitimada vontade de passar de vagão a locomotiva no avassalador trem do desenvolvimento lançado pela revolução industrial. Era a oportunidade de sair do primitivo domínio agrícola, com sua economia simples e localizada, e passar para a era industrial de sistemas complexos e economia expansiva. Nas palavras do economista político Pedro Fonseca, “o desenvolvimento já não seria apenas uma palavra de ordem a mais, mas o elo que unifica e dá sentido a toda a ação do governo, ao legitimar a ampliação de sua esfera nos mais diferentes campos.... Torna-se um fim em si mesmo, porquanto advoga para si a prerrogativa de ser condição para aspirações maiores, como bem-estar social, ou valores simbólicos de vulto, como soberania nacional”.

Assim, a decantada marcha para o desenvolvimento transmutou-se em um destino manifesto à brasileira, e na sua esteira surgiu uma grande e moderna nação, que caminha celeremente para o status de potência mundial. Nem por isso estabeleceu-se neste país verde um sistema justo de geração dessas riquezas materiais, já que os benefícios dos visíveis avanços econômicos ainda não percolam para uma maior parte dos brasileiros. Por conta da pressão política e econômica exercida pelas imposições do destino manifesto verde-amarelo, as estratégias de desenvolvimento que estruturam o caminho rumo ao progresso material foram e ainda são implementadas com vigor e sabedorias variáveis. Como a aceleração nas demandas dos mercados reflete-se linearmente na aceleração das estratégias de desenvolvimento, o cuidado com a conservação de ecossistemas, quando existiu, esteve subordinado às conveniências dos mercados. E, infelizmente, no sistema econômico atual, que ainda considera o capital natural como uma externalidade não precificável, quase nunca conservação do ambiente e da vida combina com ganhos econômicos. Isto resulta que para os não-humanos, os incontáveis trilhões de seres que compõem a mítica cornucópia de vida deste país megadiverso, vive-se a fase terminal de um extermínio ignorante, sistemático, insensível e, paradoxalmente, destrutivo das bases do sistema de suporte de vida, portanto comprometedor do próprio desenvolvimento.

A construção dos valores pátrios, a consolidação da economia para o desenvolvimento e o jogar fora a Natureza com a água do banho são todos fenômenos cujo enfrentamento requer compreensão de estruturas culturais complexas e sua evolução no tempo. Se o que se quer é um ajuste construtivo no processo social ou a criação de um pacto mais iluminado para um desenvolvimento sustentável que não fique somente na retórica, enxergar adiante requer um olhar franco para trás. E uma radiografia das raízes culturais recônditas que explicam atitudes e valores atuais precisa começar pelo componente mais sofrido no triângulo do desenvolvimento sustentável, o pouco caso brasileiro com o meio ambiente e a vida. Roberto Gambini propõe que denominemos a chegada no século XVI dos europeus ao novo mundo como o que realmente foi, uma invasão, a que Viveiros de Castro chama de enorme catástrofe, e não um róseo descobrimento. A sistemática subtração na nação brasileira da espiritualizada herança nativa foi a segunda invasão, feita por emissários da igreja na alma dos povos. Com a pulverização da cultura nativa, perderam-se também os conhecimentos tecnológicos evoluídos sobre sustentabilidade em ambiente tropical complexo, principiando assim a destruição do paraíso. A partir da brutal invasão colonial europeia, portanto, os ricos biomas brasileiros passaram por sucessivas ondas de exploração destrutiva. Além de dizimarem os povos nativos com doenças terríveis e tentativas de escravização, os europeus inauguraram uma antiecologia truculenta, que se tornou modelo para o que viria a seguir, com a exploração voraz do primeiro recurso natural
brasileiro levado à extinção, o pau-brasil. O modelo colonial europeu de exploração continuada de qualquer recurso que tivesse valor até seu esgotamento total, sem qualquer preocupação com a sustentabilidade, explica-se superficialmente pela própria natureza da distante colônia de além-mar. O Brasil era uma não-pátria, terra de ninguém, sem lei nem rei, habitada por humanos primitivos que, segundo a igreja da época, nem alma possuíam, repleta de tesouros irresistíveis, obscenamente disponíveis para a pilhagem. Passaram-se os séculos, foram-se os conquistadores mercenários, surgiu um povo miscigenado da terra, tornou-se independente a nação e com ela formou-se também uma pátria. Mas a herança maldita do saque à Natureza transferiu-se dos europeus por hereditariedade cultural, quedou-se alojada no inconsciente coletivo, incrustou-se em memes culturais10 autoreprodutivos, hoje plenamente dissimulados em nossa identidade brasileira. O saque, feito agora sem muitos pudores na própria mãe-pátria, embutiu-se sub-repticiamente como mentalidade de desenvolvimento, vestiu-se de direito e assegurou-se de imunidade nas instituições, associando-se como um carrapato ao mantra do destino manifesto verdeamarelo. O desrespeito cultural ao esplêndido lar pátrio provido pela Natureza é continuamente re-introjetado, tornou-se inato em mentalidades de segmentos chave da sociedade.

A consciência sobre todo o negativo associado à história da invasão europeia pode levar ao despertar de uma crítica libertadora, mas nem por isso seria sábio perder-se em lamentações sobre um passado revoltante pelo qual não podemos responder. Se, por um lado, o reconhecimento dos valores distorcidos é condição necessária para avançar para um futuro sustentável, permitindo reversão de curso através do diagnóstico correto e remoção do carrapato cultural herdado do invasor; por outro lado, para não cair no vazio, é importante recuperar os referenciais saudáveis e verdadeiros de respeito à vida. É possível que as culturas pré-colombianas que aqui habitavam ofereçam em sua memória um rico portfólio de soluções tecnológicas para a sustentabilidade, que, se empregadas, viabilizariam a recuperação de uma coexistência respeitosa do homem com a Natureza. Entretanto, para a civilização atual vir a fazer qualquer aproveitamento eficaz das tecnologias nativas em sua transformação na direção da sustentabilidade, seria necessário enfrentar grandes desafios nas adaptações extensivas e criativas requeridas. Ademais, sem poder contar com a receptividade do sistema cultural prevalente, urge encontrar rotas alternativas de diagnóstico e terapia. Impermeável à crítica externa, resta dissecar o âmago da própria mentalidade invasora, encontrar nela sua lógica e contradições, e trabalhar a partir daí. Quando numa floresta fechada se toma uma trilha errada que leva a um brejo intransponível, a impossibilidade de desvios ou corta-caminhos a partir daquele ponto deixa somente uma saída: retornar pela mesma trilha até a bifurcação do equívoco. Analogamente, é preciso dar marcha a ré nas caravelas, retroceder no tempo e no espaço para contemplar criticamente o pequeno continente Europeu, donde séculos atrás explodiram ondas de barbarismo colonial. Quando a Europa e sua história cultural são colocadas em foco, torna-se evidente que não somente os obscuros valores feudais nos atingiram na invasão, desaguando na interrupção do desenvolvimento cultural autóctone por chumbo, aço, germes e crucifixos. Com a subordinação forçada das colônias ao processo cultural europeu, a interferência foi muito maior e duradoura. Almas, corações e mentes nativas, antes livres, passam a carregar o peso do império nas costas. Assim, o miscigenado povo brasileiro surgiu e cresceu fundamentalmente colonizado, quase sem memória própria, atrelado ao hegemônico continente distante. Para compreender os pontos críticos na evolução do pensamento europeu e suas amplas implicações, podemos adotar a mesma metodologia dos naturalistas europeus do século 19 que chegavam para estudar e descrever o jardim do Éden no novo mundo. Paralelo curioso no plano simbólico, Humboldt às avessas, o nativo americano precisa investigar os valores e estruturas daquele pensamento e cultura que lhe subjugou, o colonizado escarafunchando a mente de seu colonizador.

Com uma história humana intrincada e fascinante, o continente europeu foi o caldeirão multicultural onde se deu o drama central na maturação da ciência e da tecnologia modernas. Como estas estruturas culturais e seus métodos de pensamento que definem percepções correntes da Natureza e de si próprias tornaram-se trilhos condutores na gestação e agregação da civilização global, pode-se dizer que saltaram da Europa para o mundo e tornaram-se temas universais da humanidade. Um bom local, portanto, para buscar raízes e revelar encadeamentos com consequência para a sustentabilidade.

© Copyright Antonio Donato Nobre, 2009, informações com o autor, antonio.nobre@inpe.br

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Chuvas de Arco Iris

Fui a Manaus a convite do meu diretor, Adalberto Val, para contribuir com um esforço de renovação feito pelo INPA na definição de novos focos institucionais, discutir os grandes objetivos da pesquisa Amazônica. Apresentei uma rápida analise sobre serviços ambientais, mas me encantei mesmo foi com o que se apresentou lá sobre nuvens, chuvas, aerossóis e a floresta, oriundo das pesquisas lideradas pelo Instituto Max Planck. Ao embarcar no Airbus A330 de volta a São Paulo, estava feliz de haver escutado sobre as novidades que aumentavam cada vez mais a conciência da importância da floresta para o clima. Enquanto rolava o grande avião pela pista pensava sobre a maquina fantástica e sofisticada, dezenas de toneladas, capaz de erguer-se na direção do azul numa velocidade impressionante. Apenas poucos minutos após a decolagem, deixando a urbe da selva para trás, já podia divisar a sudeste o campo de nuvens para além da margem direita do grande Amazonas. Chegamos rápido a altitude de 12 mil metros (62 graus negativos de temperatura externa), passava das 16:30 h. Com o sol baixo no horizonte atrás, eu sentava na janela ao lado esquerdo, quase na cauda da aeronave, com o panorama se desenrolando como uma pintura em movimento abaixo da enorme asa. Tapete de brócolis verde escuro, via-se a floresta por debaixo de nuvens baixas individualizadas, chamadas de maritime pelos meteorologistas, que chegavam a 4 km de altura. Com o formato de algodão doce, resplandeciam estas nuvens de um branco puro, todo o quadro emoldurado por uma variedade de outras nebulosidades de água em suspensão, cujas matizes variavam do branco ao cinza chumbo. Acima deste grande teatro tridimensional, disputando espaço na abóbada celeste onde deslizava sereno nosso avião, delgadas formações translúcidas flutuavam no invertido oceano azul-oxigênio do infinito. Como se toda esta visão de beleza não fosse suficiente, as variadas nuvens de baixa altitude estavam quase todas descarregando seu precioso líquido sobre a floresta, como regadores no jardim do Éden. Neste momento veio o golpe de misericórdia, que fez imaginar-me transitando num outro mundo etéreo: a iluminação solar razante a projetar-se sobre estas nuvens, meu ângulo privilegiado de visão e os cristais no líquido em precipitação entraram em sinergia num efeito extraordinario de refração da luz branca, produzindo milhares de micro arco-iris, creio um para cada gota, colorindo a chuva em toda sua altura, da fonte na nuvem, cujo branco não se contaminava com as cores, até o sombreado tapete verde na floresta. Como o avião no seu curso deslocava lentamente meu ângulo de visão, as cores na chuva de arco-iris passeavam por toda a extensão lateral da precipitação, fazendo com que a nuvem branca extendesse um iridiscente e multicolorido vestido longo até a floresta, vestido que também parecia escoar pelo efeito das gotas em movimento gravitacional. A surreal beleza daquela realidade inundava meus olhos e se multiplicava às dezenas, pois outras nuvens próximas e distantes produziam o mesmo efeito de luz e cores, um espetáculo de 20 minutos que pareceu desenrolar-se noutra dimensão de tempo. Ainda agora, dias depois, deleito-me na observação da cena projetada pela memória vívida na tela virtual da mente. Quando passamos pelo que parecia ser uma fronteira do campo das chuvas de arco-iris, o airbus inclinou-se para a direita, desviando-se de algo à frente, mostrando-me pela janela empinada o azul escuro profundo do céu onde agora não haviam nuvens. Quando a aeronave completou o desvio de trajetória à direita, voltou a girar em torno do eixo longitudinal, agora para a esquerda, descrevendo um grande arco em torno do motivo do desvio, uma estrutura gigantesca que agora preenchia quase todo o campo de visão na minha janela pendente. Era uma nuvem cilíndrica vertical branco-fosforecente com textura flocos-de-lã, cujo topo estava acima donde voávamos e a base surgia das profundidades, quase tocando a superfície. Iluminada potentemente pelo sol inclinado, esta nuvem era um gigante branco isolado no espaço, com o azul profundo e limpo no segundo plano acima, o verde escuro intenso da floresta em baixo e o campo de belas nebulosidades esparsas à distância, uma pintura impressionista de Monet. Normalmente as nuvens fisicamente próximas do avião passam muito rapido, mas esta não. Contemplava-nos pacientemente, parecia como se a viagem houvesse apeado num mirante aéreo imaginário para render homenagem àquela apoteose branca da Natureza. Devia estar bem distante, talvez uns 10 km, mas sua circunferência e estatura eram tamanhas que geravam a ilusão de estar logo ali, como se a asa inclinada, na sua trajetória em câmera lenta próxima do perímetro, fosse tocá-la. O arranjo arquitetônico majestoso das gotas de água lá fora foi demais para minha alma, rolaram as gotas da emoção.
Como pode ser que nunca houvera visto tal espetáculo tendo vivido mais de 20 anos em Manaus e tendo voado este mesmo trajeto incontáveis vezes? Nestas imagens pude ver em ação todos os principios descobertos pela ciência atmosférica do projeto LBA; pensei na cornucópia de biodiversidade ativa no oceano verde da floresta, controlando a evaporação e a condensação da água no ar, a formação de nuvens, a dinâmica dos ventos. Mas acima de tudo, pude testemunhar com emoção como a Natureza viva consegue ser prática sem perder a elegância, enfeitando cada processo fundamental com uma arte incomparável de extravagante beleza.
E a viagem no airbus continuou. Estavamos possivelmente nos aproximando da região do rio Teles Pires, não sei. Vi no horizonte à frente um brilho alaranjado, como um reflexo numa superficie espelhada. Quanto mais nos aproximávamos, mais intenso o laranja até que finalmente pude divisar a superficie plana de um grande rio que serpenteava na floresta. Donde vinha a cor forte que se refletia ali? O sol estava a oeste, a reflexão era promovida por luz de leste. Pouco depois começaram a aparecer áreas imensas de desmatamento recente, estávamos chegando ao arco do fogo. Mas se estávamos na estação das chuvas, donde viria o alaranjado que parecia o reflexo de chamas? Respondendo a esta pergunta surge no campo de visão de meu privilegiado assento no anfiteatro aéreo uma cena chocante de simbolismo assustador. Nuvens grandes, muito maiores do que aquelas sobre o oceano verde, subiam da floresta em ruínas. Eram nuvens esgarçadas, confusas, não tinham uma geometria definida. Não haviam chamas nem labaredas reais de queimadas, não poderia haver com tanta umidade. Aquele laranja, que já se tingia de tons vermelhos fortes, era a mesma luz do poente, agora com o sol afundando no horizonte e separando os componentes primários da luz branca. A porção quente do espectro pintava de fogo as nuvens bagunçadas, de tal forma que estas pareciam com enormes labaredas de 7 km de altura. Fechando a visão do céu azul profundo de até há pouco, e completando o cenario sinistro, um outro tipo de formação nebulosa, cor de chumbo lembrando fumaça e fuligem, constituia um teto denso e compacto acima destas nuvens-chama. Aquele cenario real, de apocalipse simbólico, desafiava a ficção. Que contraste com as chuvas de arco-iris no oceano verde da Amazônia íntegra!
Caiu a noite, e o voo continuava, agora sobre as extensões do Brasil de ontem, domado a ferro e a fogo nos séculos passados. Sob a luz fria de uma lua imensa descortinava-se um grande vazio no volume atmosférico. Apenas uma camada de nuvens secas e baixas, matizada como papel crepon, cobria a terra abusada abaixo. Partimos do reino das águas na Amazônia viva, passamos pelas infernais labaredas da destruição nos campos de violação e chegamos às planícies mortiças dos desertos de jusante, território tomado por arrogantes homens do agro negócio.

Quando a grande aeronave tocou o solo em São Paulo eu, absorto, mirava o infinito de modo reflexivo, ainda assombrado pela experiência acumuladas nas últimas 4 horas. Pensava sobre o que estamos fazendo com o mundo, quando despertou-me do torpor a visão de uma infinidade de micro arco-iris coloridos. Congelada a superfície externa da aeronave, cristais de gelo formaram-se em minha janela durante o taxiamento, e a luz dos potentes refletores do aeroporto produziram as refrações em miniatura. Conclui com eperança no coração: començando pelas pequenas coisas, precisamos reconstruir a Vida no mundo.

sábado, 6 de junho de 2009

Escaravelhos Humanos

Dezembro de 1998, cumpria um período científico na UnB em Brasília. Transicionava o governo FHC do primeiro para o segundo mandato. Eu me preocupava com as tentativas em curso para modificar o código florestal quando tive um sonho, daqueles que dá roteiro para filme de terror. No sonho vi-me no que parecia ser um centro cirúrgico de um hospital. A poucos metros encontrava-se um corpo deitado sobre uma mesa operatória, cercado por profissionais médicos, não conseguia reconhecer a sua identidade. Na verdade não conseguia nem bem ver os contornos do corpo, parecia coberto por um manto marrom escuro de algo que se mexia. Me aproximei, e que enorme susto, o substrato marrom era na realidade uma capa de milhares de escaravelhos grandes e feios movendo-se avidamente sobre o corpo, metendo suas trombas perfurando a pele, sugando o sangue. Me aproximei ainda mais, estranhando protuberâncias grandes nas cabeças dos insetos.... mas, o que era aquilo?...Incrível, ...não eram cabeças de escaravelho,...eram cabeças humanas... ou seriam apenas faces?... mais pareciam com máscaras em bailes de fantasia... Mas o quê? ...Eram faces conhecidas... sim, lembravam políticos no poder, fazendeiros da Amazônia, madeireiros, mineradores, empresários. Um dos médicos na sala se aproximou e me explicou que o corpo era o Brasil, e que os escaravelhos eram uma matilha pestilenta a refestelar-se sugando a vitalidade do corpo enfermo. Perguntei assombrado porque eles não removiam os escaravelhos, ao que eles responderam que não podiam, já que os seres disformes tinham o pulso vital do País em seu controle. Uma remoção radical resultaria na morte do corpo, assim que somente podiam tirar um a um. O sonho acabou e acordei aturdido. A imagem tétrica de escaravelhos humanos com caras amarronzadas de políticos e ruralistas me deixou consternado pelo azar do maravilhoso País Verde, em seu leito de morte. Desde este sonho já se vão mais de 10 anos, nos quais a realidade tenebrosa daquele sonho se mostra a cada dia com maior excrecência e vigor pestilento. Agora, a sociedade Brasileira, refém dos escaravelhos sugadores, se vê diante de um assalto de grandes proporções na própria legislação ambiental do País. Que será do corpo enfermo, quanto tempo ainda resistirá?